O celular toca, você atende, mas do outro lado da linha só há silêncio; logo a ligação cai. Esse incômodo, que parece banal, é, na verdade, parte de um fenômeno chamado robocalls: as chamadas automatizadas que se multiplicaram em larga escala no Brasil. São bilhões de ligações por mês, muitas vezes sem voz, sem identificação e sem qualquer propósito aparente, mas que escondem uma engrenagem poderosa — usada tanto por empresas de telemarketing para otimizar seus atendimentos quanto por criminosos para validar números e preparar golpes cada vez mais sofisticados.
Embora a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) e as operadoras de telefonia móvel tenham desenvolvido ferramentas para combater as robocalls, o problema está longe de ser resolvido. O TechTudo conversou com um especialista e mostra a seguir a verdade por trás das ligações feitas por robôs. Confira.
No índice abaixo, confira os tópicos que serão abordados nesta matéria do TechTudo.
- Por que recebemos tantas ligações que desligam assim que são atendidas?
- Como funcionam essas ligações?
- O que diferencia uma robocall legítima de telemarketing e um golpe?
- Como essas ligações podem virar golpes?
- Como se proteger das robocalls?
- O que as operadoras e a Anatel fazem contra isso?
- Por que mesmo com regras essas ligações continuam?
1. Por que recebemos tantas ligações que desligam assim que são atendidas?
De acordo com levantamentos, o Brasil registra mais de 10 bilhões de ligações automatizadas, o que corresponde a 61,9% de todas as chamadas feitas no país. Muitas delas duram apenas alguns segundos e se encerram logo após o atendimento.
Essas ligações são feitas por sistemas automáticos conhecidos como robocalls. Rubens Waberski, da Akamai Technologies e líder de uma equipe de engenheiros no Brasil, México e Argentina, explica: “Essas chamadas, que desligam em poucos segundos, são quase sempre geradas por sistemas automatizados de discagem. Elas têm basicamente dois usos principais, sendo um legítimo e outro malicioso“.
2. Como funcionam essas ligações?
O mecanismo é simples: softwares disparam centenas de chamadas por minuto e, ao detectar resposta, decidem se conectam a um atendente ou encerram. “Quando a chamada desliga, significa que o robô já coletou o que precisava e segue para o próximo número”, detalha Waberski. No telemarketing, isso evita que operadores fiquem ociosos. No crime, são os chamados “ping calls”, que identificam números existentes e mapeiam potenciais vítimas.
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3. O que diferencia uma robocall legítima de telemarketing e um golpe?
As operações legítimas seguem exigências regulatórias da Anatel, que identificam a empresa, usam prefixos específicos e apresentam mensagens automáticas de boas-vindas. Já as fraudulentas, muitas vezes são originadas de números falsificados por “spoofing”.
“Embora não exista um método infalível para diferenciar robocalls, certos comportamentos são característicos das maliciosas. Elas costumam ser muito curtas — geralmente de um a três segundos — sem áudio inicial, identificação da empresa ou opções de menu”, afirma Waberski.
4. Como essas ligações podem virar golpes?
Atender não instala vírus nem dá acesso ao aparelho. O perigo está em confirmar que o número é ativo, o que aumenta seu valor em bases ilegais. “Do ponto de vista técnico, atender essas chamadas não instala malware, não ativa rastreamento e não dá acesso ao dispositivo. O risco não é atender, mas nas consequências após isso”, explica Waberski.
Esse dado é relevante porque mais da metade dos brasileiros já foi vítima de algum tipo de golpe digital em 2024, segundo relatório da BioCatch. Ou seja, validar um número pode ser o primeiro passo para ataques mais sofisticados, como phishing por voz ou falsas centrais de atendimento.
5. Como se proteger das robocalls?
A primeira linha de defesa está no celular. A maioria dos modelos Android e iPhone (iOS) já oferece recursos nativos para reduzir o incômodo. Rubens Waberski lembra que “no próprio smartphone já existem ferramentas disponíveis para bloquear essas ligações. Outras coisas que funcionam são ativar recursos como ‘silenciar desconhecidos’ ou ‘filtrar chamadas’, não retornar chamadas para números suspeitos e manter dados pessoais fora de sites desconhecidos“.
Outro ponto importante é a conscientização do usuário. Golpes por telefone seguem padrões conhecidos, como criar senso de urgência ou pedir informações sensíveis. Waberski alerta: “Organizações legítimas nunca solicitam códigos de verificação por SMS, senhas, tokens ou dados de cartão por telefone. Outro sinal de alerta forte é quando uma chamada ao vivo acontece logo após um breve robocall“.
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Por Diego Cataldo , para o TechTudo
